quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

De tablatura à partitura [Último Ato]


[...]
Trocaram um si por um fá. E as borboletas se transformaram em mariposas negras e enormes. Uma arrepiante mancha preta sobre a cabeça do pianista. Preparadas para o ataque. Os anjos trocaram as harpas pelos arcos e apontaram flechas cor ferrugem para os olhos do músico imperfeito. Os pássaros voaram longe, como se tivessem ido chamar alguém. Os unicórnios se transformaram em cavalos negros de olhos vermelhos e chifres pontudos. Do chão escorria terror e já não era mais doce o caramelo que escorria das colinas raivosas. Agora o que transbordava no horizonte era uma lava vermelha e borbulhante que queimava tudo o que via, até o poço de mármore dos unicórnios negros. Os mesmos, correram em direção ao estranho musicista, que perdera o sorriso e o brilho nos olhos e ganhara de volta seu pijama. Os pássaros piavam alto e ensurdeciam o menino. Chamavam a atenção para o rei. Ele estava vindo. Decidiria o que seria feito com os dedos desastrosos e seu dono. A corte se formou e o rei de bigodes negros e pele vermelha apontou o tridente para a barriga do garoto. Os cavalos negros, as mariposas, os pássaros, os anjos e suas harpas, a lava e o rei o atacaram ao mesmo tempo. Tudo escureceu e o menino se sentiu cair em algo gélido, insípido e duro. Era o chão do seu quarto. Caíra na realidade. A perfeição só existia bem longe dele.

De tablatura à partitura [1º Ato]

(leia escutando, se quiser > http://bit.ly/eHcW6v)
Como num estralar de dedos, tudo desligou. As luzes se apagaram e a tela do computador enegreceu. A música que ecoava do rádio silenciou-se. O único som audível eram os trovões ao longe. Foi levantar-se da cadeira e topou com o joelho na quina da mesa. Caiu ao chão e bateu a cabeça no assoalho.

Abriu os olhos e estava em uma nuvem de algodão-doce. O pássaros entoavam acompanhados de querubins que tocavam harpa. De repente, um longo piano de calda apareceu na sua frente. Era todo colorido e polido. O sol fazia o brilho cegar o mundo inteiro de tutti-frutti. Decidiu sentar-se e tocar um pouco. Não sabia como fazê-lo, mas parecia dominado por um espírito fanfarrão e musicista. As notas escorreram pelos dedos ardilosos do menino. Eram movimentos rápidos e perfeitos. Um verdadeiro Bach. Mas com a modernidade de Licht. Os pássaros recostaram na calda polida para acompanhar as improvisações ensaiadas do músico. O menino não estava mais de pijama. Agora, vestia-se com um belo e refinado smoking, com uma camisa fio 50 egípcio de cor amarela e um belo lenço bordo à tira colo. As partituras pareciam dançar com a música e se ajeitavam a pedido do pianista. Ele conduzia não só as folhas. Todo aquele universo encantado havia parado para ouvi-lo, e se atentavam à cada gota de suor que escorria da testa longa e robusta dele. A música era alegre e agitada. Era uma sinfonia doce e colorida. Os unicórnios ao fundo bebiam água no poço de mármore. A perfeição de um lugar tão belo e alegre se dava, agora, pela condução do jovem maestro. Ele estava cansado, mas tudo parecia se equilibrar por conta das notas emitidas pelo piano encantado. Os nós dos dedos já estavam inchados e os olhos do regente já não liam mais as partituras. Tudo de cabeça. Teria que ser assim daqui para a frente. Das colinas sorridentes, escorria um caramelo hipnotizante. O arco-íris cantarolava com as batidas dos dedos ao piano. As borboletas formavam uma mancha colorida no céu. E o mundo ficava cada vez mais lindo, puro. Ia se moldando conforme o mito auricular mandasse. 

A música estava no fim pela quinta vez, quando os dedos inchados do menino erraram uma nota.
[...]

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Caminho da vida (First Sequence)














Do fundo da água
Brilha a estrela-do-mar,
Refletida com a luz solar
Peço-lhe consolo
Ajuda-me a encontrar
Uma razão na vida
Para eu continuar

Canta meu pensamento
E leva-me a sonhar
Como se fosse verdade
Não esse tropeçar

Eis a estrela-do-céu
Que é diva das minhas noites
Cobre minha vida com um véu
Esse que faça minha vida sem pedras

Criaturas que alegram com o cantar
Voam pelo céu livre.
Feito o andar da estrada
Que nunca muda sua empreitada

Com o dom de levar o desintegrar
Das flores que brotam em lugares lindos por fora
Mas podres de lembranças por dentro
Traga-me a solução para meu...
Amor!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Vida e Morte


Treze anos de idade. Seus olhos já viram muita coisa. Saber que tudo aquilo que vivera era, agora, apenas aquilo. O tão pouco de vida, o tão pouco de experiência. Era difícil ouvir aquelas palavras e não demonstrar nenhuma reação. Na verdade, era impossível. Ela sabia que não terminaria o colégio e não assistiria até o fim da novela. Não iria se casar, como sempre sonhara. Não teria quatro filhos, muito menos um casal de gêmeos. Não viajaria o mundo ao lado da felicidade. Não conheceria as próximas décadas. Nem a próxima primavera. Talvez este seja o último fim de ano para ela. Será que vale a pena começar o ano se ela não irá terminá-lo? Suas unhas roídas apontavam o nervosismo que ela sentia. Ainda mais naquele momento. Era tão linda. Antes de tudo. Antes de nada. Prometeu para si mesma que pensaria positivo e que teria esperanças. Jurou que exorcizaria do seu vocabulário a palavra terminal. A única coisa que podia fazer era desabar em choros e desabafos desnecessários. No fim, ela não estaria mais aqui. 

O médico engoliu seco e disse: - Me desculpe, mas você tem no máximo mais 3 meses de vida. - descruzou as pernas e tornou a cruzá-las.  

Não sabia o que responder para o doutor. Apenas revirou os olhos em busca de palavras e as vomitou sem pensar: - Feliz é a morte, que no fim sempre tem uma companhia. Triste é a vida, que no fim sempre é abandonada. - Ela havia se conformado. Pelo menos por hoje.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Pensamentos de um suicída

O trem seguia para o sul. A nuvem negra seguia para o norte. O trilho marcava o encontro dos dois no horizonte. Já era tarde e Rudolph voltava para casa, assim como todos os dias. Morava no interior, mas trabalhava na capital. Vestia uma camisa listrada preta e vermelha que escondia seus braços magros. Os cabelos negros ficavam amassados e tentavam escapar pelas bordas do gorro. Os olhos verdes se ostentavam ao centro das lentes de um óculos de grau. Nos pés trazia um all star rasgado, sujo e preto, assim como o céu estava naquela noite. Sentado ao seu lado estava uma senhora que aparentava pintar os cabelos de loiro. Do outro lado estava Ela. Fixava o olhar para as bochechas vermelhas de Rudolph. Toda de preto, com um batom vermelho e um olhar hipnotizante, Ela era a luz que iluminava o vagão. Aproximou-se dele para conversar, mas bem na hora que disse oi, Rudolph levantou-se e saiu do trem pela porta da esquerda. Ela ficou muito brava e decidiu segui-lo, da mesma forma como o trilho fazia com o horizonte. Viraram a esquina do boteco do Seu Jorge e entraram na Alameda Lorena. A terceira casa com gramado verde e cerca branca, destino final. Entraram pelos fundos, passaram pela cozinha para pegar um lanche e um suco e foram direto para a sala. Toda mobiliada no estilo boate francesa, neon e porcelanas extravagantes. O tapete de veludo foi o aconchego para ambos. Os únicos que podiam acompanhar a cena eram dois ramos de alecrim fixados atrás da porta de madeira. Finalmente poderiam conversar. Ou talvez essa parte não fosse necessária. O tapete se tornou um colchão e os dois rolaram até a mesa de centro. O abajur cor de peixe se espatifou ao chão de madeira envernizada. A saliva escorreu pelo canto da boca e por entre as notas da música que se podia escutar ao fundo. Talvez um violino ou um violoncelo. Quem saberia decifrar. Se despiram rapidamente. Antes mesmo que a música acabasse. Seria um pocket show. O chão era muito grande para eles. Decidiram ir para o sofá de zebra estampada. Na verdade parecia mais uma poltrona do que um sofá. Pequeno demais. Acabaram caindo ao chão novamente, mas dessa vez no piso frio. Caíram no sono logo em seguida. Próxima estação [...] a saliva escorria pela boca, o rosto encostado na janela fria e respingada da chuva e a música clássica que tocava baixinha no mp3. Ele teria que descer e ir para casa sem a companhia Dela. Mais um dia normal e pesado. Nada de Morte por hoje mocinho, respondeu sua consciência.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Meu___________________________________________Seu

Não quero uma cura definitiva. Quero apenas um descanso passageiro. Deixe-me sentar na janela e apenas observar a vida passar. Não irei tomar nenhum caminho conscientemente. Apenas me deixarei guiar pelos buracos e elevações do meu asfalto. E também tenho um coração que bate à um ritmo frenético. Não sinto palpitações quando estou feliz. Apenas deixo de sentir esse músculo de uma maneira comum. Não sou eu que mudo, é ele. Assim como minhas pupilas dilatadas e úmidas fazem questão de aparecer quando não as chamo. Minha raiva também não sabe marcar horário. Sempre arranja um encaixe entre a alegria e a paz de espírito. Tudo que me rodeia, também é meu. Meus amigos, familiares, colegas. Agora a única coisa que não é minha, é aquilo que você me deu e agora irei te devolver. Peço de volta apenas uma coisa que você me roubou, a solidão











(Não precipite de seus olhos, aquilo que nunca precipitei por ti: arrependimento)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Sentimentos contrários


Seu abraço me fere
Sua boca me fura
Seu desprezo me ingere
Sua raiva me emoldura

Músicas tristes são alegres para mim
Escuridões são pensamentos no claro
Pontos negativos são azuis no boletim
E o vermelho não é mais um disparo

Azedo, doce, amargo, salgado
Seco, molhado, duro, melado
dedos, mãos, pescoço, negado
arranhões, mordidas, puxões, afago

Boto fogo na água
e de nós sai fumaça
Queima por dentro
Por fora aparento
desgraça

Pese o que vale mais
e não deixei quem te ama atrás
pois uma faca pode ser mais rápida
que a confiança em forma de gás

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Anjos



(Antes de ler, uma trilha sonora)

Era meia-noite. Como todas as noites o anjo saiu à procura de mais um. Alguém que estava perdido. Alguém que queria ser encontrado. Avistou lá de cima uma mulher magra e cinza. Sentada embaixo de uma figueira, fazia figas de tanto nervoso. O anjo se aproximou dela para observar os detalhes do seu rosto esquelético. Percebeu um ar de mortalidade no piscar das pálpebras já cansadas. O anjo havia encontrado sua guarda. Tinha que protegê-la. Não podia deixá-la ser influenciada pelos outros. Ela estava naquela floresta e devia permanecer assim até o fim do trabalho. As asas negras se fecharam e os pés descalços tocaram as folhas secas ao chão. O estralar dos galhos denunciou a aproximação da entidade. A mulher sabia quem era e o que deveria fazer. O arcanjo Izrail se aproximou de Madelaine e viu em seu olhar negro qual era o instrumento necessário. O anjo da morte lhe entregou uma arma de fogo. O tiro ecoou pela floresta e o fogo logo queimou os galhos secos e retorcidos daquele inferno. O anjo se recolheu e voou para baixo. Madelaine levantou e subiu. Tudo ficou claro e ela pode enfim sair daquela floresta. Encontrou novamente o anjo, só que agora ele era maior, tinha seis asas. Era um querubim, apontava para o Céu e sussurrava em seus gestos o que ela devia fazer. A mulher havia engordado uns quilos, estava saudável e suas maças não estavam mais cinzas e apodrecidas. Uma gota caiu do céu e lavou todo o barro que havia em suas roupas. Pode ouvir, ao fundo, uma harpa tocando. Era seu despertador. Ela havia saído daquele inferno sozinha. Ela e sua arma. Ela e sua vida. Ela e sua morte. E a morte era a única saída para o impasse que sua vida fora encaminhada. 

Acorde antes que seja tarde. Durma antes que seja cedo. A noite passa muito rápido e o sol sempre aparece para clarear os pensamentos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Minha Segunda Pessoa


O vento chacoalhava a copa das árvores e o olhar alaranjado do sol fixava o horizonte. Já havia começado. Pegou o espelho de dentro da sacola e se deparou consigo mesmo. Uma cena que durou anos em apenas três segundos. Como um objeto tão pequeno e frágil podia acusá-lo de ter mudado? Pensou em sua infância e lembrou da inocência que carregava na memória. Se alguém lhe desse uma faca, ele iria cortar todo aquele pensamento em vão.

Era a hora. O ponteiro corria para mais uma volta. A faca se moldava ao desejo do instrutor. Quero [...] profundas! Quero [...] simétricas! Quero [...] de leve e tortuosas. Eu quero e era o que importava naquele momento. 

Faca do dia: de serra. Motivo do dia: solidão compartilhada. Dia. Sem o sol, já estava noite. Mas o vento estufava o peito e subia ao palanque para gritar aos seus quatro irmãos que hoje era uma noite fria.

O estalar da carne atiçava os tímpanos feridos de tanta injúria. O sangue escorria aos poucos silenciosamente. O barulho era interno. Um sussurro. Não havia mais lágrimas como da primeira vez. Agora, o espelho denunciava um sorriso desconhecido. Ele não era mais o mesmo. Perdera o controle do seu autocontrole. 


sábado, 19 de novembro de 2011

Wie bist du denn?

Ainda parada, a observava. Ostentando-se do chão, era o centro das atenções. Toda de preto e prata. Delicada e poderosa como se pudesse derramar qualquer lágrima que desejasse. Não as suas, as dos outros. Ao lado, a menina estava parada com fones de ouvido e olhos inchados. Talvez seus pés também estivessem inchados. Afinal, a cerimônia tinha se alongado demais. O preto era ausência do branco. Pelo menos naquele dia era. Nenhum sorriso ou exaltação. Movimentos calmos e aleatórios. Um teatro de fantoches acorrentados. As emoções se escondiam. Tinham sido enterradas junto ao homem. O fone de ouvido sussurrava uma melodia que balançava os tímpanos da pobre pequena. Aquele não era lugar para uma criança. Aquele era lugar para mortos. E sua face pálida ainda tinha resquícios de vida. Uma veia poderosa esverdeava suas maças ríspidas e claras. Não eram sardas. Era terra mesmo. Ventilava com força por entre as árvores secas e molhadas. O cheiro era de um armazém de secos e molhados. Dois passos e olhou para trás. Não devia ter se arriscado dessa forma. Viu ela novamente. Agora maior, mais poderosa. Domadora. A dominada criatura vendeu-lhe duas gotas. Apenas duas. Logo a mão cortou o cair das mesmas ao chão de folhas marrons. E a música recomeçava. Os dedos balançavam no ar como se estivessem tocando a melodia. Eram dedos habilidosos. Era uma menina. Era a música. Era a lágrima.

Era ela. Domadora.

Louco


Porque o céu é azul? E as nuvens? Elas escondem algo do qual eu deva ter medo? Sinto que a cada pergunta estou falecendo mais rápido. Eu e minhas ideias. Não consigo mais escrever impessoalmente. A cada palavra, um corte. A cada corte, uma gota. A cada gota, um pouco menos de mim que se esvai junto com a vontade. Sinto-me confuso e perdido. Quem apagou a luz da minha vida? Não quero mais o sol. Quero a luminária artificial e simples. Quero um cubículo fechado e intransponível por quem quer que seja. Esse sou eu. Não tente me mudar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Versus


Os antônimos são necessários! Você sabe o que é estar com frio, pois já se sentiu quente. Assim como sabe o que é azedo, pois já provou o doce. Se não soubéssemos da paz, não seríamos conta a guerra. Para tudo existe um parâmetro. E esse parâmetro é realmente essencial na nossa vida. Pense em um lugar escuro. O que falta nesse lugar? Luz? Exatamente! Se não conhecêssemos a luz, não teríamos como pensar na ausência dela. Os sentimentos também são assim, antônimos. Ser bom, pois conhece o ruim. Ser amado, pois nunca foi antes. Ser bobo, pois já foi sério em algum momento. Até a palavra antônimo têm seu antônimo. E ser feliz? Será mesmo que a felicidade e a infelicidade são antônimos? As pessoas felizes já foram tristes em algum momento da vida. E o mesmo acontece com os infelizes. Eles já foram felizes. Eu conheci a felicidade. Eu conheci o calor. Eu conheci a luz. Eu conheci a vida. Queria não ter conhecido.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sono & Ócio

Uma menina com sono deitou em sua cama e morreu.
Uma menina com sono deitou em sua cama.
Uma menina com sono deitou.
Uma menina com sono.
Uma menina.
Uma.
Minha menina, durma bem.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Menos dez

3'42'' 'Temos nosso próprio tempo'
Em dez segundo, uma vida acaba e outra começa. Em apenas dez mil milésimos de segundo muita coisa pode acontecer. Um amor renovado, um amor acabado, um amor abalado e um novo amor. O tempo é sim mutável. Cada um tem a visão que quer dele. Se estou com pressa, ele foge como um passarinho da gaiola entre-aberta. Logo, se estou cansado e quero terminar tudo de uma vez, o tempo se torna amigável, e senta ao meu lado para conversar. E o pior é que ele não mede palavras. Enquanto você lê esse texto que eu demorei mais que 10 segundos para escrever, tem um asiático morrendo. E não é porque você respira! Fique calmo. É porque o tempo é apenas o guia da nossa jornada. Infelizmente, ele tem um pacto com a morte, e com a vida também. Tudo minimamente calculado. Cada segundo, cada piscar de olhos, tudo para irmos chegando perto do fim. Você pode me dizer: "Mas que pessimismo o seu!" Pode até ser verdade. O que me leva a crer que toda essa discussão está me consumindo. Meu corpo e minha mente envelhecem, fico esbranquiçado a cada dia. O tempo pelo menos nos ensina uma coisa. Ele nos conta, nos momentos de dificuldade, que estamos aqui porque queremos. A décima maior causa de mortes está ai para nos consolar. E existem as outras nove para nos salvar. 

Agora pare um pouco e conte até dez. Algo mudou na sua vida? Você pode dizer que não, mas mudou. Muita coisa muda. E esses dez segundos não voltam. Já foram gastos e você os escolheu como gastá-los. A escolha é sua. Não volte no tempo, apenas gaste-o consigo, contigo, comigo, com amigos, com ele mesmo.

Agora pare um pouco e conte até dez. Você novamente contou? Espero que não tudo.

10 pétalas

Ela tinha uma rosa com dez pétalas em sua mão. Todas lindas e avermelhadas. O cabo não tinha espinhos, mas a mão da menina tinha uma cicatriz. Ela guardou a flor em seu peito como se protegesse a um filho. A franja do cabelo escondia um sorriso estampado em seu rosto lindo, que mostrava um brilho em seus olhos verdes. A flor era frágil, assim como o coração da menina. Os dois estavam pulsando. Bailavam juntos como se a rosa pudesse ser quem o coração queria que fosse. Naquela hora ela era ele. Beijou-o e sentiu-lhe o perfume. Uma pétala se desprendeu do botão e caiu ao chão. Era o beijo. Foi dormir um pouco triste, mas ainda com os olhos brilhando.

No outro dia encontrou mais duas pétalas ao chão. Pegou-as e guardou em um potinho, assim como tinha feito com a outra. Eram os olhos e o sorriso. Trocou-se e foi tomar café. Fez suas atividades diárias ouvindo algumas músicas que lhe faziam entoar junto com a melodia. Mais uma pétala caiu. Era a voz. Guardou mais uma e decidiu escrever um pouco. Tinha o dom com as palavras quando estava feliz. Um vento bateu e mais três pétalas se foram. Eram as mãos, os braços e o abraço.

Já de noite estava deitada lendo o livro quando seu irmão chegou um pouco triste. Ela usou palavras confortáveis e aconchegou-o. Enquanto isso, mais duas pétalas caíram. Eram os elogios e a amizade. De repente a campainha tocou. Era ele. Ela saiu correndo e o abraçou. Mais uma pétala havia caído. Era a saudade. Apenas uma sobreviveu. Ele pegou a rosa com apenas uma pétala e a arrancou. Ele a disse que era o amor. E que esse estava guardado em seu peito.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A.D.I.V.


O sol ia nascendo na beira da estrada. O rosto repousado estava amassado. Os olhos fixavam a vida. Uma grande estrada. Talvez até um caminho infinito. Levantou a cabeça e pôs-se de pé para que todos o pudessem ver. Ele e sua vitória, sua glória. Uma roupa suja vale muito mais do que o branco da covardia. Os primeiros passos descalços doíam. Claro! Ele ainda não tinha se acostumado. Era um momento único, só dele. Não precisava mais de ninguém para caminhar, e isso o estranhava. Ao fundo ouvia vozes. Durante um bom tempo ouviu conselhos, mas naquele momento não. Ele tampou os ouvidos com força, apertou o passo e começou a correr. Cada vez mais rápido, como nunca antes na vida havia corrido. O vento balançava seus cabelos, o sol já se punha mais à cima e o fim da rodovia já era visível. Para trás, o escuro. Em frente, a luz, o sucesso e tudo que ele tinha que alcançar. A vida. Seus pés não doíam mais. Flutuava como uma pluma. A estrada era pouco para sua velocidade. Era capaz de muito mais. Não queria se manter preso aonde não coubesse. Por isso havia começado a correr. O suor lavava seu rosto avermelhado. Suas unhas grandes apertavam os palmos das mãos. O lábio sofria com a mordida de ansiedade. A garganta estava seca. Onde encontraria água para se refrescar? Estava quase lá e não podia parar por um fetiche qualquer. Ele era maior que sua vontade, que sua estrada, que todos à sua volta. Maior que a solidão à sua volta. Já ultrapassava as nuvens e as estrelas piscavam com sutileza para ele. Não tinha tempo para olhar as estrelas, tinha que chegar ao final. O pódio o esperava. Passava por tudo de bonito que as nuvens formavam. Flores, bichos, amores, filhos, sorrisos. O cabelo já era escasso e branco. A pele enrugara com a força dos ventos. Os pés voltavam a doer e as unhas já não eram tão firmes. De repente se sentiu perdido. Não tinha aonde segurar. Flutuava sem direção. Não podia se movimentar. Suas pernas paralisaram. Seus dedos se abriram. Seus olhos se fecharam. Seus ouvidos puderam sentir o sopro de um último conselho. 

"Antes De Ir, Viva. ADIV a VIDA."

sábado, 22 de outubro de 2011

Cicatrizes

Tenho uma do medo
Tenho uma da dor
Tenho uma do segredo
Tenho uma do amor

Aquela é vida
Essa é esperança
Foi feita pela mão amiga
Todo o stress dessa minha andança

Do corte serrado ao mais afiado
Da luz do abajur à maior escuridão
Do banheiro ao chão tablado
Eu só peço que não haja compaixão

Olho para mim
E vejo o puro erro
Mas pelo menos assim
O meu sucesso almejo

Tenho uma bem profunda
Com certeza de solidão
Mas às vezes eu afirmo
É apenas 'de pressão'

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

[...] de lei

            — Vamos!? Já está tarde e amanhã é segunda. — disse o [...] mais velho.
            — Beleza. Tchau amor, boa semana e se cuida. — falou o [...] mais novo para sua namorada ao cruzar o portão.
            A mesma piada no carro, o mesmo trajeto até a casa. Os dois não conversavam sozinhos há um bom tempo. Logo a tão esperada conversa começou. 
            — Então cara, o que está acontecendo contigo? Você mudou.
            O outro assustado respondeu prontamente: — Eu sei. Desculpa
            — Não precisa pedir desculpas. Só queria saber, por que você vive brigando com os outros? — perguntou quando mudava a marcha.
            — É que [...],

[...] mais velho lagrimava

            Chegaram à casa. Ele estacionou o carro e continuou falando:
            — Quero ver você continuar a amadurecer assim como nos seis primeiros meses.
            — Eu prometo que vou me controlar. Desculpa de novo. — falou o [...] mais novo.
            — Te considero meu [...] — disse o [...] mais velho
            — Você é fod# cara! Te admiro bastante! — retrucou o [...] mais novo
            O [...] mais velho esperou o [...] mais novo passar pelo portão e deu um sorriso de missão cumprida.
            Os dois [irmãos] foram cada um para sua casa. FElizes

sábado, 15 de outubro de 2011

Meu mistério, meu ministério, meu mini-estéreo

Meu rosto está quebrando e estou virando areia. Um pequeno vento que sopra em minha direção já me abala e me deforma. Não consigo me manter intrínseco as coisas que rodeiam a minha personalidade. Porque estou fazendo isso comigo? Sinto-me afundar novamente num mar de lamúrias em vão. Eu afundo e levo comigo as pessoas que estendem a mão para me erguer. Deveria eu aceitar uma intervenção humana em uma crise tão divina? Estou confuso e machucado. O stress está me matando e meu coração já não é mais forte o suficiente para suportar tantas palpitações. Parece que a 'solução' que havia encontrado foi-se pelo ralo. Meu rosto está quebrando e estou virando areia. Uma areia movediça. Nunca pára aonde deve. Sempre afunda quando é tocado. Sempre morre quando está alegre.


Julgamento



O réu estava à frente do juiz.
Tinha o olhar furioso
Virava um copo de anis
Tentava digerir o duvidoso.

O júri boquiaberto atentava
As testemunhas consentiam
O silêncio após um grito sustentava
A situação de dedos que reprimiam

Um peso sai junto à sentença
O não exprime a besteira
Uma desnecessária desavença
Melhor eu tomar dianteira

Doutor, desculpa
Você é mais do que aparenta ser
Mas eu te li erroneamente

É claro que você é inteligente
É claro que eu fui antecedente
É claro que nossa amizade é proeminente
À tudo que foi dito anteriormente

Basta Rapaz,
esqueça a situação
ou seja mais sagaz
e desligue sua atenção
pra minha opinião

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cortei

Cortei minha história
Cortei e joguei ao vento
Cortei minha glória
Cortei e não me lamento

Curei e ficou cicatrizes
Daqueles que me curaram
Curei e ficaram felizes
Por que eles realmente me amaram

Talvez o meu pulso ainda sangre
Mas o líquido agora é outro
Não estou mais naquele mangue
E o barro que tenho é pouco

Um traço não me resume
Uma ação não me congela
Irei aumentar o volume
Escutais: "A vida é tão bela"

(Esse post não é auto biográfico)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

My immortal Live forever













Talvez sua pele seja mais que uma necessidade
Confesso que mais que tudo eu sinto vontade
Mas será que posso batalhar pelo o que não tenho?
Às vezes seria melhor um arsênio

Não me peça pra ser o que você quer
Apenas me chame quando quiser
E eu estarei aí, te fazendo sorrir
Até quando você me mandar partir

Posso odiar o que mais amo
Posso criar seu ser humano
Basta pensar em outro plano
Onde você ainda seja tirano

Venha me massagear
Venha logo descansar
Digo não em pleno altar
Mas clamo pra você voltar
Sozinho, comigo.

Comigo e mais ninguém
Peço que você não me siga
Quero que você olhe além
Além de qualquer coisa que eu diga


Nós
Imediatamente
Cairemos
Onde
Eu
Finalmente
Estarei

Aqui.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ir desatando os nós.

Eu vou passar por isso e terminar o que é necessário. Um fim traz um começo.
Tu vais voltar pra mim e não haverá mais silêncio ou solidão. Haverá dois em um.
El@ vai ter que entender que não tem como escapar do que é cansativo e mutável.
Vós ides abençoar a união que compartilha de mútua dependência.
Eles vão observar que desde o começo a vida dupla era tudo. Era preciso desatar os Nós.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Vida real

Cena 1
Valentina entra em casa, tira a meia-calça, o tamanco e deita seminua no sofá de camurça. Pensa em Pedro. Se levanta e vai até a cozinha beber um copo d’água. Vê seu reflexo no vitrô da lavanderia e olha para trás. Caminha sorrateiramente até a geladeira. Pega um vinho seco aberto na noite passada. Abre o armário preto de madeira velha e envernizada, segura a taça com três dedos finos e vira o líquido cor de sangue no recipiente transparente.

Cena 2
Antônio acorda. Toma um banho demorado. Cria sua própria sauna a vapor. Põe um terno de linho e um sobretudo. Pega o guarda-chuva e caminha sentido a estação. Entra no metrô, vai até o centro e se perde. Para em um bar e pede informações. Pede também uma bebida. O frio pedia uma destilada da cidade natal de Antônio. Ela é de Salinas. Traz consigo, assim como seu conterrâneo, a força de hipnotizar e camuflar seus males com um gosto amargo. Pega suas coisas, paga a conta, sai pela chuva e, quando chega à esquina, se lembra que esqueceu a informação em cima do balcão. Talvez sua memória já estivesse um pouco falha para lembrar seu destino. Volta para casa e liga para Valentina.

Cena 3
A agulha da vitrola e a tampa aberta da caixinha de música não eram as únicas coisas que ecoavam pelo apartamento. Gemidos podiam ser ouvidos. Uma mistura de prazer e dor, dependência e entrega. Carlos ouvia tudo atento enquanto tomava um uísque Red Label e esmurrava o sofá amarelo de couro gasto comprado na liquidação de garagem. Os gritos eram homogêneos, mas ele pode reconhecer. Tina e Tônio se entrelaçando. Caça e caçador, cordeiro e faca, querer e poder. Carlos tinha os olhos molhados assim como sua boca normalmente seca para conversar com Tina. Esmurrou mais uma vez. Agora foi a mesa de centro estilo rococó. Virou o copo e engoliu o ódio. Alcançou a raiva e foi até o apartamento vizinho.

Cena 4
O clima foi cortado pelas batidas frenéticas e ritmadas na porta. Tônio levantou para atender. Cambaleou irritado até a entrada e alcançou a maçaneta. Sua mão estava suada e dificultou a virada. Se deparou com Carlos pedindo silêncio pois não conseguia dormir. Tônio morreu por dentro, mas respondeu educadamente que faria ausência de sonoridade absoluta. Fechou a porta e virou um soco no rosto de Tina. Alguns golpes foram ofertados na sequência. O ciúmes estava presente assistindo a luta que já tinha um vencedor anunciado.             Tina caiu ao chão com o sangue cor de vinho escorrendo pela mandíbula. Tônio chutou o umbigo do adversário e saiu pela porta. Quando chegou à esquina novamente sua memória falhava e ele já não lembrava mais da maçaneta difícil de abrir.

Cena 5
Carlos voltou ao apartamento e encontrou uma fresta que denunciava o corpo. Arrombou-se apartamento adentro e se ajoelhou, como que para um deus, perto de Tina. Ela estava respirando, mas não podia se movimentar. Estava inconsciente ou talvez paralisada pela dor. Ele logo percebeu que aquele era o melhor momento para ele botar fogo naquela vontade indomada. Ele abaixou as calças. Despiu o corpo já nu de Valentina e a domou, a consumiu, a tragou, a bebeu. Ela agora podia resmungar baixo, mas não havia outro vizinho que pudesse ouvir. Não havia também Antônio ou Pedro que pudesse socorrê-la. Ela apenas calou e consentiu. Ele terminou, levantou-se e abriu a maçaneta ainda úmida. E agora gelada.

Cena Final
Tina ligou para a polícia, se vestiu e arrumou a cama. Deitou no sofá e pensou em Antônio e Carlos. Levantou-se e foi até a cozinha. Com passos firmes e leves chegou ao armário e pegou uma taça a mais que noite passada. Prosseguiu até a adega e pegou um vinho tinto lacrado. A campainha tocou. Ela colocou um sobretudo transparente de seda, levou as taças vermelhas até a mesa e atendeu a porta com a maçaneta agora quente. Era José. Serviu o vinho cor de sangue e limpou o sangue cor de vinho da boca. Amanhã pensaria em José e tomaria a sobra do vinho de hoje. O dinheiro era colocado em um cinzeiro. Este possuía cinzas de um pagamento de uma prostituta. O cordeiro era a faca.

“Aqui ninguém vai pro céu.” – Não existe amor em SP – Criolo Doido

sábado, 1 de outubro de 2011

Nada sólido, quase líquido, tudo gasoso

Eu morri no dia em que nasci. Deixei de ser aquilo que sempre quis ser: gás. Me tornei um sólido comum, assim como os outros. As diferenças são apenas miragens da nossa mente criativa. Somos todos um bloco de massa sólido que se movimenta. Claro que fazemos muito mais coisas, mas todas as habilidades que temos e adquirimos são pra que? Infelizmente eu sei a resposta. Somos blocos e queremos permanecer blocos pura e simplesmente. Mas como tudo é mutável e nada é estático, podemos nos fundir e evaporar. Basta um pequeno gesto que pode ser feito de 'n' maneiras. Um bloco só decide se transformar quando o calor das emoções  nos esquentam e viramos líquido. Esse líquido é transparente, salgado e escorre das janelas dos  blocos. Muitas pessoas o nomeiam. Eu gosto de chamá-lo de mim mesmo. E a questão é que elas escorrem muito facilmente. E a partir daquele momento, é inevitável impedir a evaporação. Escolhi me misturar nas gotas do mar. Evaporei, mas não pude subir e voar novamente. Eu nasci no dia em que morri. Mas logo percebi. Não há paraíso ou mistura de gases, sólidos e líquidos. Há apenas vazio em concreto. Concreto vazio.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Meus Eternos Nãos & suas TIRAS

Cometo um delito.
Eu sei, e admito.
Minha vida é um mito.
Não ouço o apito.

O clarinete me chama,
a clara em neve me engana,
armo uma traquitana
e novamente ela me abana.

A rispidez da minha língua,
é a calmaria do meu pensamento.
Se falo a verdade, é mandinga
Se falo mentiras, logo contento.

Uma em mil é assim.
A abstinência verbal não tem fim.
Os outros me jogariam festim.
Se soubessem das mentiras pra mim.

No calor as coisas agravam.
As tiras se alongam demais,
Com suas pernas curtas.
Eu vou andando pra trás.

domingo, 25 de setembro de 2011

Filosofia de vida - Parte 1

A vida é feita de três princípios. O primeiro deles é o amor, aos amigos, à família, ao próximo, ao amor. O segundo é a felicidade. Esteja feliz a todo momento, dê risada e faça os outros rirem de você. O terceiro é a paz. Se você alcançar os outros princípios, você não terá porque se estressar ou brigar com quer que for. Sorria agora, olhe no espelho e seja feliz por nada. (pensamentos da madrugada)

sábado, 24 de setembro de 2011

Gêmeos


Não consigo traduzir eu mesmo
Às vezes estou cego
Mas outras vezes estou surdo
Ou até mesmo mudo,
e mudo em tudo.

Parar é difícil demais.
Eu não consigo pensar e não agir.
E a culpa é sua, e em suma
Te amo.

É um choque estar feliz.
E viver com você é a única forma.
Porque ainda continuo duvidando
Se eu estou aqui amando?

Entre versos e vidas te encontrei
Entre tudo e nada me achei
Não posso mais reclamar, afinal
O meu rio negro encontrou com a sua corredeira de quintal.

Corra, mas ao meu lado.
Ame, mas só a mim.
Viva, mas deixe-me proteger.
Morra, mas que tenha sido feliz.

Tento não ser tão flexível
Mas sempre sou o mais compreensível
Sou de gêmeos e existem dois
Mas ambos amam os sóis.

[Vida, devolva minha fantasia (8) ]

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

De manhã



Cortei o meu dedo com a faca do pão.
Cortei mais um dedo pra mais um verão;
Cortei em segredo do meu coração,
Todo seu amor que era um algodão.

Pensei que era azedo, mas logo senti.
Provei no veneno, o doce em ti.
Tentei não ter medo de admitir,
Que seu gosto morava onde escondi.

E suas estrelas habitam meu céu.
Da boca logo sinto todo o mel.
Será que eu consigo de uma vez secar
O meu peito suando, suado pra amar?

Peguei o algodão que você me deu,
Molhei num futuro que agora é só meu,
E joguei as gotas no meu apogeu,
Pra declinar e voltar a ser breu.

Mais uma luz acontece.
Mais um dia amanhece.
E tudo que peço é uma prece,
"Que o dia seja bom como o pão."

(Bom dia vida!)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Folhetim

Acordo todo dia às sete horas. Da manhã, é claro. Trabalho doze horas por dia, seis dias por semana, das nove às nove. Não preciso dizer mais nada. Minha vida tem sido um inferno. Não só pelo calor que passo todo dia no ônibus e no metrô, mas também pelo meu estado de saúde mental. Desejo o mau á toda e qualquer pessoa que atravessa o meu caminho. Cada minuto de atraso no trabalho, são cinco minutos a mais que tenho que ficar na empresa.

Trabalho em uma multinacional de eletrodomésticos em São Paulo. O nome dela não interessa. O que realmente é importante é o salário. E tem sido assim há um bom tempo. Acabo priorizando o valor material das coisas e jogo fora no lixo orgânico todo o meu lado sentimental. Deve ser por isso que minha esposa me largou. Éramos casados há dois anos e onze meses. Não tivemos filhos, apenas peixes. Muitos. Uma de nossas maiores brigas foi por causa da bendita coleção de peixes exóticos dela. Só por quê derrubei o pote de ração inteiro dentro do aquário, não quer dizer que eu queira matá-los. Tudo bem que foi isso que aconteceu, mas para tudo na vida existe uma explicação.

O sol batia no meu rosto apenas para disfarçar o dia frio que estava por vir. Levantei o braço direito para dar sinal ao ônibus que passava. Era o mesmo automóvel, com o mesmo condutor, mesmo cobrador, mesmas pessoas emburradas, masma velha senhora mal-educada e mesmo acento gelado. Como descia apenas no último ponto, resolvi me sentar hoje. Quebrei a rotina. Tudo fora dos planos. O sabor doce de raspadinha e de vida bandida me permeavam.

A cada ponto, mais pessoas subiam e mais sufocante ficava. O calor me consumia de uma dotada vontade de me atirar para fora daquele convento às avessas. O barulho trambém era insuportável. O estalar dos bancos de plástico me consumiam a paciência e a lucidez.

Resolvi me levantar para tentar encontrar algo de motivante em mais um dia inútil e inacabável. Peguei minha maleta com as mãos amareladas e ao inclinar-me para frente e ajeitar-me no banco, as pessoas à minha volta já começavam um balé da dança das cadeiras. Um jovem estudante, uma mulher sobrepesa e um idoso malfeito. Quem sentaria no caloroso banco, aquecido por minhas nádegas durante o caminho impiedoso e tortuoso? Apenas me levantei e fui em direção à porta. Nem me interessava o resultado daquela gladiação pitoresca. Dois pontos em pé ao lado da porta e a estação chegou. Meu sossego acabou.

[continua...]

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Duas Moedas


         Era uma bela tarde ensolarada. A estrela central estava à pino e criava sombras aos pés das mentes humanas. A rua estava movimentada e os prédios abraçavam toda aquela constelação de criaturas. Os azulejos quebrados daquele velho restaurante de esquina a observavam. O garçom vestia um belo sapato preto engraxado pelo menino do outro lado da rua. Pagou com duas moedas de plúmbeo. Aquelas mesmas moedas haviam saído da bolsinha rosa dela que pagara o café expresso ao garçom.
            O mesmo menino continuava a engraxar os sapatos alheios. Mas estava difícil se sustentar com aquilo. Ele parou um segundo e contou os trocados que ganhara naqueles dias. Era o que ele precisava. Pediu para um outro menino tomar conta do caixote e saiu correndo com as duas e mais moedas na mão. Só parou de correr cinco quadras acima do restaurante. Era uma rua sem saída. Encontrou um velho de aproximadamente 35 anos. Velho na aparência. Tinha as mãos ásperas. Essas mesmas mãos pegaram as moedas contadas do menino e entregaram à ele uma pedra.
            O homem de aparência, às vezes até mórbida, pegou as duas e mais moedas e foi andando lentamente até uma farmácia. Entrou com toda a calma e com cautela procurou em cada prateleira uma caixa. Ela tinha uma faixa preta, pensou ele. Aonde será que está? Não me lembro do nome. Encontrei! Estendeu a mão com unhas pretas e trouxe ao peito o tesouro. Foi ao caixa e pagou com as duas e mais moedas. A atendente loira e triste entregou o remédio dentro de uma sacolinha de plástico vagabunda.
            O expediente da loira havia acabado e ela teria que correr para encontrar as primas no metrô. Pegou as duas moedas e uns trocados, se despediu do chefe de sobrancelhas grossas e foi correndo até a estação.
            No caminho tropeçou em uma guria que estava sentada na calçada. As moedas rolaram e só pararam dentro do bueiro ao lado da guria. A loira deu um grito histérico e continuou a correr até a estação. A guria se levantou, olhou aquelas moedas ao fundo. Duas em especial brilhavam. A água dos chuviscos que caíam arrastaram todas as moedas para longe. Foram embora.
            Ela ainda estava no café. Tinha a sua bolsinha rosa presa nas mãos com dedos finos. Tinha uma aliança no dedo indicador. Dentro dela estava escrito seu nome, Vida, e de seu marido, Morte. A data era 00/00/00. As moedas eram presentes da Vida. A sorte e a felicidade passaram pelas mãos dos que mais necessitavam, mas eles estavam preocupados com o futuro e não com o presente. Logo encontrariam o marido dela.

"Pegue o presente, mesmo que não seja de sua vontade."

Ela Manda


Meu coração é subordinado ao teu.
Nem sei se posso mais chamá-lo de meu.
Acho que ele não me habita mais.
Minha própria vida ficou pra traz.


Sem você [...]

[...] Quando o Sol ilumina,
O meu dia é uma sina.
Já de noite à luz da Lua,
A felicidade fica nua.

Ela chama,
Eu enlouqueço.
Ela deita,
Eu estremeço.
Faço tudo sem apreço,
Sem o não e o meu sim.

Ela manda,
Eu obedeço.
Minha amada,
Meu começo.
Minha Amanda,
Eu te peço
Não me ame mais do que mereço.

domingo, 7 de agosto de 2011

Confortavelmente entorpecido

Sentado na guia, o menino olhava para o horizonte pelo canto do olho. Seu olhar estava avermelhado e ele parecia à espera de alguém. Tinha os cabelos negros, parecidos com a cor da parede onde estava encostado. Era de uma fábrica abandonada. A rua era, na verdade, uma viela e naquela hora não tinha ninguém por lá. Ao fundo, o trem passava soltando uma fumaça branca. Aquilo o lembrou de suas brincadeiras de adolescência. Seu amigo lhe ensinara o jogo. Não era tão difícil. Lembrou também que aquele mesmo amigo tinha ido embora e não brincava mais com ele. Agora ele tinha que fazer tudo sozinho e aquilo era um fardo muito pesado para ele, mesmo tendo ombros largos.


Morava bem longe de onde estava agora. Sua caminhada ajudava na ansiedade. Ele se sentia melhor andando até lá. Na verdade correndo. Não era das pessoas mais pacientes que se pode conhecer. Mas seus sentimentos também eram muitos esquisitos. Um menino como muitos outros que existia por ali. Todos eram iguais. Não só psicologicamente, mas fisicamente também. Eram todos magros, com braços marcados, olhos baixos e cabeças vazias. Os pensamentos eram todos voltados àquilo.


Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro. Queria gritar, estava obstinado e não sairia dali sem pegar o que tinha que ser pego. Era um menino levado. Sempre comprava balinhas e não pagava. Roubava o dinheiro da carteira de sua mãe para consumir o que tinha de melhor da vida. A mãe fingia que não via e dava aquele sorriso de protetora. Ela sempre o fazia quando o menino saia para brincar. Era muito preocupada com a diversão dele, mas tinha também um pouco de medo das consequências de censurá-lo. Tinham uma boa condição de vida e aquele dinheirinho da carteira não faria falta. Viviam da herança que o avô do menino deixou. Ficaram com o mesmo dinheiro e vício, afinal seu avô também adorava brincar.


Uma pessoa veio andando pela rua. Era a tão aguardada encomenda. Com um moletom preto e um capuz cobrindo o rosto, o homem chegou. Sem pronunciar nada entregou um pacote ao menino. Dessa vez não eram as balinhas e nem o cheiro do velho mato que ele rolava quando criança. Era um frasquinho com um líquido transparente e forte. Ele entregou algumas notas amassadas ao homem, que se virou e foi embora de onde veio. O trem, o amigo, o avô e alguns meninos também já tinham ido embora. Logo ele também iria. Estava comprando a passagem aos poucos. Afinal, ele não era mais uma criança e aquilo não era mais uma droga de brincadeira.






The child is grown. 
The dream is gone. 
And IIIIII... have become comfortably numb.” 

sábado, 30 de julho de 2011

Não mais fratricídio

Matar um gato é bem mais difícil do que matar uma pessoa. Eu só me dei conta disso quando tive que fazê-lo. Sempre fui assim, corajosa e assassina. O que podia fazer se alguém dentro de mim balbuciava palavras de repressão? Tinha que mostrar para ele que eu era mais forte que todos. Aceitava qualquer desafio. Já matei mais do que nasci. À noite é difícil segurar esse instinto. Atacava apenas por prazer, mas acabou virando um trabalho. Eu tinha que matar porque senão alguém que eu conhecia iria morrer. Eu tinha certeza disso.

Estava sobre meus próprios pés ao lado daquela árvore. Ela me conhecia bem. Aquele era meu ponto. Um lugar calmo, mas com movimento. Hoje ele havia sussurrado para mim que eu deveria matar outro gato. Não queria mais fazer aquela atrocidade, mas ele me ameaçou e afirmou que se não cumprisse, minha irmã seria decapitada E eu não queria que aquilo acontecesse de novo.

Comecei a preparar tudo. Peguei a linha de pesca e o anzol. Pendurei na árvore. Peguei a faca e me escondi. Estava passando a vítima perfeita. Uma senhora de uns 65 anos. Quando ela estava no local certo, eu peguei o anzol e prendi em sua boca com apenas um golpe. Cortei sua língua para que ficasse quieta. Puxei a linha ao máximo. Ela não podia me ver. Estava com a cabeça inclinada para trás. Fui até a minha mochila e peguei o gato. Era necessário. Cortei a calda e a cabeça dele com muita rapidez. Já estava acostumada. Peguei o rabo e a fiz engoli-lo. Os olhos pretos dela começaram a lacrimejar e eu me irritei. Ela tentou pronunciar algo, mas fiz ouvidos de mercador. Cortei-lhe a orelha esquerda e comecei a rir. Aquilo era muito prazeroso para mim. Essa era a verdade. Ninguém balbuciava ou sussurrava nada ao meu ouvido. Era a minha própria consciência que implorava por sangue.

Um trovão cruzou o céu e eu tive que me apressar. Cortei o pescoço da senhora e comecei a beber todo o sangue. Cada gota era como um elixir de êxtase. Aquilo me animou. Cortei dedo a dedo. Primeiro os da mão, e depois o do pé. Cortei-lhe a barriga e mordisquei-lhe o intestino que teimava em fugir. Ela já não se mexia e eu tinha que me mexer. Guardei minhas parafernálias, amarrei a linha no pára-choque do carro e acelerei. O anzol rasgou a bochecha dela e o sol rasgava o luto de mais uma noite chuvosa. 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Curtains Drawn

O tiro atravessou a cabeça e ele caiu. Estava frio demais para consertar tudo. Eles namoravam há cinco anos e nunca haviam brigado. Conheceram-se na fila da padaria e foi aquele bendito olhar 43. Ela era magra, ele era bravo. Ela era engraçada, ele era alto. Moravam juntos num flat em São Paulo. A vista que eles tinham não era a das melhores. A janela da sala ficava voltada para um prédio comercial. Trabalhavam juntos no hospital, estudaram juntos na faculdade. Até moraram na mesma rua sem que nunca tivessem se falado quando criança. 

Ela era médica infectologista. Ele era pediatra. Os turnos dos plantões nunca se encaixavam e fazia meses que não saiam juntos para jantar. As refeições, quando não eram feitas na lanchonete do hospital, eram macarrões instantâneos sem tempero. Assim como as compras do supermercado, as contas de casa eram divididas pela metade. Cada um comprava o que comia. Cada um pagava o que consumia. Cada um viva o que queria.

No começo do namoro tudo era uma maravilha. Flores e chocolates todo dia. Depois o trabalho foi consumindo o tempo dos dois. Nunca haviam brigado porque não tinham tempo. A vida era corrida e tudo vivia sendo atropelado pela pressa dos dois. Como disse o Chris Martin, ‘ninguém disse que seria fácil’. Mas os dois combinavam bastante. Para os espectadores da relação, tudo estava às mil maravilhas. Os cabelos ruivos dela combinavam com os dedos dele. O sorriso emburrado dele combinava com as orelhas pequenas dela. A calça dela combinava com o brinco dele. Apenas aparências.

Aparências são como um tiro que atravessa nossa cabeça e quando elas se vão, nós caímos na realidade. Caímos e nos machucamos. Uma dor que vem de dentro. Aquela dor que bate ardendo. A culpa não é de ninguém, apenas sua. Ela jogou a arma no chão e saiu correndo. Saiu chorando. Saiu mancando. A cortina caiu.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Concreto

Leiam escutando essa música!! ^^



Não sentia meu corpo. Estava caído ao chão e consciente. Passei por aquela rua indo para casa e tropecei na raiz da árvore onde, agora, estava encostado. Tentava mover minhas pernas e não conseguia. Fiquei desesperado e não sabia o que fazer. As pessoas passavam por mim e não ajudavam. Todas corriam apressadas e não podiam parar um segundo sequer. Um jovem distraído, alto e magro, que passava pelo local ouvindo música, não me viu. Acabou chutando minha perna, o que me deixou mais aliviado. Eu senti o chute, mas não podia me mexer. O moço pediu desculpas e eu não conseguia fitar meus olhos em seu rosto. Minhas pálpebras pesavam demais e meu olho se fechou. Nessa hora me senti flutuando. Tentava respirar, mas os músculos do meu corpo estavam todos paralisados. A única coisa que sentia era o vento que batia no meu rosto. As pessoas que passavam na rua riam e eu podia ouvi-las, mas não conseguia pronunciar algo audível.

Tentei manter a calma e me concentrar. Eu tinha que me levantar e ir para casa. Minha mulher estava à minha espera. Ela não gostava de imprevistos e eu nunca me atrasava na volta do trabalho. Sempre tive uma saúde muito boa e por isso trabalhava como peão em uma empresa metalúrgica duas ruas acima da minha. Comecei a pensar no jantar que minha esposa devia ter preparado. Fiquei com água na boca literalmente e uma gota de saliva escorreu pelo meu rosto e caiu sobre o macacão verde. Era meu uniforme de trabalho. Vivia um pouco sujo, mas mesmo assim tinha orgulho de vesti-lo.

Não sabia mais que horas eram. Meu pulso estava caído e meus olhos ainda fechados. Talvez já tivesse escurecido. Não ouvia mais os passos das pessoas nas ruas. Será que minha mulher estava aflita em casa? Ou será que ela me procurava nas ruas? Talvez até a polícia já estivesse atrás de mim. O vento soprava mais forte e gelado e comecei a sentir um formigamento nos braços. Fiquei muito nervoso e não aguentava mais esperar. Comecei a suar frio. Minha testa estava toda molhada e não parava de coçar. Tentava mexer minhas mãos para alcançar minha cabeça, mas não conseguia. Nem meu pescoço se firmava em pé. Estava pesando demais. Eram tantos pensamentos que me ocorriam que eu não sabia mais o que fazer. Estava exausto de tentar e não tinha movido nem um dedo. Pensei que se ninguém me ajudasse eu ficaria ali para sempre, como uma estátua de concreto. Era isso. Tinha me lembrado. Eu não era ninguém e aquilo tudo não passava de um delírio meu. Eu era apenas uma calçada de concreto sonhadora e sozinha. Imóvel. 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Estranha Perfeição

Tudo era milimetricamente calculado. Nada podia escapar da perfeição. Ela procurava dia e noite algo para melhorar. A casa sempre estava arrumada. Seu armário era chumbado na parede. Ao abrir o que se via eram as camisetas dobradas sem nenhum amassado, duas prateleiras onde ficavam as calças, todas jeans, e uma arara com os vestidos separados por cor. Os sobretudos, todos pretos, ficavam bem embaixo, perto dos sapatos. Eram muitos calçados. A maioria eram sapatos de salto, mas também tinha uma dúzia de tênis.

Morava em um sobrado impecável. Pintado anualmente por ela. Não havia uma luz queimada e também não havia nada fora do lugar. A sala era dividida entre jantar e estar. Ela nunca sentava no sofá para não bagunçar. Também não comia em casa, pois preferia comer fora e não ter que lavar a louça. Atrás do sofá seguia um corredor com paredes cor creme. Era bem largo e arejado. Não gostava de nada escuro e deixava as persianas sempre abertas. O corredor levava até um escritório e um banheiro ao final. Assim como na casa toda, era totalmente arrumado. Cheio de toalhas reservas brancas e felpudas embaixo da pia. O Box não tinha uma gota sequer, afinal ela nunca usava aquele banheiro. Ele era para as visitas que ela nunca chamava. Não gostava de contato social com pessoas que não fossem metódicas.

Ao subir as escadas que ficavam do lado esquerdo da mesa branca de jantar, encontrava um hall com um vaso grande de porcelana. Dentro dele tinha apenas um copo de leite. Ela gostava de flores, mas elas fediam e morriam. Aquela não precisava de tantos cuidados e, por isso, estava lá. Ao lado do vaso tinham duas portas. Uma branca e outra de madeira fosca. A branca levava ao quarto da moça. O quarto não tinha muita mobília. Tinha uma cama de viúva, o armário chumbado, um baú nos pés e um tapete que ficava em frente ao espelho no canto. A outra porta estava trancada, mas debaixo dela saía um feixe de luz que parecia vermelho.

Era hora do almoço e ela tinha que fazer seus rituais antes de sair de casa. Ela fechava todas as portas primeiro, depois ia conferir se ela realmente tinha fechado todas e por último abria todas de novo, sempre na mesma ordem. A única porta que se mantinha imóvel era a de madeira fosca. Saiu, olhou para a rua, olhou para a caixa do correio, olhou para o sol e aí sim se virou para bater três vezes na porta com cada mão e fechá-la. Já estava atrasada, mas não podia deixar de lado algo tão importante.

Foi ao restaurante do centro da cidade. Não pegou o carro, pois tinha esquecido as chaves dentro de casa, e não dava tempo de fazer o ritual de abrir a casa. Foi a pé, mesmo estando de salto alto. Chegou ao restaurante ofegante, mas logo segurou a respiração e entrou. Sentou-se na mesa de sempre, pediu o prato de sempre, fez o ritual dos palitinhos e comeu. Tinha que comer em exatos 17 minutos e 11 segundos. Sempre conseguia. Se terminasse antes, deixava um grão de arroz para comer no último segundo. Se estivesse atrasada, não mastigava. Era esbelta, pois não comia doces. Então pediu a conta e pagou apenas com moedas brilhantes.

Voltou para casa. Fez todo o ritual para entrar em casa e correu para a porta de madeira fosca. Girou a maçaneta com a ajuda de um paninho úmido e entrou. Era o único cômodo escuro. A única coisa que se podia ver era uma luminária com luz vermelha ao fundo e uma poltrona de couro ao lado. Ela se sentou e começou outro ritual.